Liberdade: Direito ou Privilégio?

Bom dia, cumprimento com um sorriso tímido o motorista do autocarro. Hoje é um motorista, ontem foi outro, amanhã logo se verá. Mas enquanto tento espremer-me pelo corredor de acesso aos bancos vejo as mesmas pessoas e as mesmas expressões de sempre. Pertencem, na maioria, a mulheres. E elas vão trabalhar? Vão estudar? Vão visitar um amigo? Não me intrometo no destino delas, mas uma coisa é certa: sei que para estarem ali não tiveram de pedir autorização aos pais ou aos maridos. E eu sou uma no meio delas. Outra privilegiada que ali vai mais uma vez noutra manhã igual a tantas outras. Igual? Sento-me. Tiro o telemóvel do bolso e acedo ao calendário. Hoje é dia 26 de Abril. Um dia como os outros, o dia que sucede ao feriado que celebra a Liberdade em Portugal. 



Questiono-me, no entanto, como terá sido a manhã do dia 26 de Abril de 1974? Como terá sido a manhã depois da Revolução dos Cravos? Se me esforçar muito posso adivinhar que provavelmente houve muitas pessoas que acordaram e se sentiram confusas porque não sabiam bem como seria a vida delas dali para a frente. Permaneceria a mesma? Mudaria de facto alguma coisa? Depois sentiram-se excitadas porque se lembraram de que os seus amigos e vizinhos estiveram ao lado delas e viram os mesmos cravos entalados nas bocas dos canhões, ouviram as mesmas vozes, as mesmas botas que embatiam no chão ao ritmo de uma marcha rebelde e cheia de sentimento. E será que sentiram medo? Medo de retaliação? Não posso dizer. Não estava lá. Eu faço parte da geração que, como já referi, foi privilegiada porque nunca sentiu na pele o que é ser privado de Liberdade. Liberdade é o nosso dia-a-dia. Um Direito pelo qual outros lutaram para que hoje ninguém nos tire o livre arbítrio escolhendo por nós as roupas apropriadas que devemos vestir, os lugares onde podemos ir, as pessoas com quem podemos falar, as carreiras que podemos seguir. Infelizmente ainda existem vários países em que a Liberdade não passa de uma vaga ideia que paira no ar, intangível.



Por isso lancei um desafio aos meus colegas do grupo Bloggers Portugal e questionei-lhes: "o que achas que é o 25 de Abril, o que significa ou até o que DEVERIA significar"?

A querida Catarina Cepêda do blog Identificate respondeu-me com uma única fotografia da sua autoria que por si só diz muito. Na imagem vejo o povo português, uma mistura de mais velhos e mais novos em uníssono, elevando a bandeira em sinal de orgulho e respeito. Os meus olhos também param no erguer de um cravo que mostra que a revolução não foi esquecida e com certeza não será esquecida no Futuro. Mais ao fundo vejo ainda cartazes que fazem jus à liberdade de expressão. Uma que vale por mil palavras, não há dúvida. Para quem quiser conhecer mais do seu trabalho basta aceder à sua página em Olhares, uma plataforma que se auto-intitula como sendo "a maior comunidade de fotografia em língua portuguesa". Vão lá espreitar!
© Catarina Cepêda

Por último (mas definitivamente não menos importante) apresento-vos o texto que a corajosa Nádia Santos do blog Vida Cheia de Tudo submeteu advertindo que o texto resume aquilo que lhe foi transmitido e aquilo que foi aprendendo ao longo da vida. 

Depois de ser questionada sobre o que era para mim o 25 de Abril (ou o que é que significava) pensei automaticamente no fim da ditadura e na Revolução dos Cravos. Mas é algo ausente de qualquer sentimento, emoção. E foi nesse momento que me lembrei das histórias da minha avó Princesa. Ela contava que antes do 25 de Abril a vida social era proibida. Se parassem na rua 3 vizinhas juntas era o suficiente para a polícia aparecer. Bem, hoje somos 10 na rua e a polícia aparece na mesma. Acho que as senhoras do pré-25 de Abril ficaram traumatizadas. Mas agora fora de brincadeiras: acho que seria impensável para qualquer pessoa nascida e criada após a revolução não se ir sentar numa esplanada rodeada pelos amigos ou simplesmente organizar um jantar sem ter medo que alguém fizesse a tal da denuncia à PIDE. 
A tal da PIDE que tinha presos políticos, muito provavelmente pessoas que se calhar nem percebiam nada de politica, que eram torturados. Havia a Guerra Colonial, o medo constante de um familiar próximo ser chamado a apresentar-se, ou aqueles que lá estavam não regressassem. E os poucos que lhe sobreviveram não gostam ou recusam-se a falar sobre o assunto. Um género de "O que aconteceu em África ficou em África." Infelizmente as memórias más tornam-se em fantasmas para o resto das nossas vidas.
Outro ponto que a minha Princesa dizia, era a censura em tudo, os filmes eram censurados, os livros, a arte, o jornal era revisto várias vezes antes de ser publicado.

O mundo cor-de-rosa dos noticiários foi substituído pelo balde de água fria da realidade. Mas mesmo assim preferível. O que iria eu fazer sem o meu blog? Só de imaginar andarem a rever os meus textos e depois rasurarem as minhas opiniões, que horror. 



Depois posso juntar aquilo que sabemos historicamente. Hoje podemos votar, apenas somos preguiçosos demais para exercer um direito pelo qual, há 44 anos, os nossos avós e bisavós lutaram. As mulheres não podiam viajar sem autorização dos maridos (não vos faz lembrar nada?!). E o nosso país vivia parado no tempo rural, numa sociedade de mente fechada, hoje já podemos "soltar a franga" e ser criativos.




Por todos essas razões e depois de reflectir e pôr-me no lugar das pessoas daquela época, o 25 de Abril é, além de um marco histórico para Portugal, um ponto de viragem social e económico.





O 25 de Abril, não é apenas o dia em que não vou trabalhar, é o dia que marca a mudança e a liberdade.



Agradeço a ambas a participação que considero ter sido essencial na construção desta postagem. Mas agora volto-me para quem está a ler e questiono: "o que é para ti o 25 de Abril"?

Até Breve! 

12 comentários:

  1. Gostei tanto deste post!
    O nosso 25 de Abril enche-me de orgulho. Para mim, mostra aquilo que se consegue com o poder da união, e a força que ela tem. Acho que podemos e devemos transpor mais isso para o nosso presente e futuro!

    Beijinhos!
    MESSY GAZING

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    1. De facto é um dia do qual nos devemos orgulhar porque nos erguemos enquanto povo contra uma opressão ditatorial que atrasou o desenvolvimento de Portugal.

      Obrigada pelo comentário ^^, Beijinhos!

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  2. Muito orgulho da luta, embora não tenha ainda tido os resultados que os lutadores queriam. O ideal em si devia dar força a todos <3
    www.photographandread.wordpress.com

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    1. A Revolução do 25 de Abril foi realmente um marco gigante na altura, mas é certo que devemos sempre lutar pelos nossos direitos porque como todos sabemos a sociedade não é perfeita e todos nós temos o nosso papel cmo parte integrante. "Baby steps" :P

      Beijinho <3

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  3. É o dia que nos permitiu nascer numa democracia,
    E por isso tu e eu e todos nós podemos escrever, falar dizer o que pensamos porque somos humanos em plena liberdade.

    Queria agradecer-te pela exposição, essa foto é sem dúvida uma das minha preferidas, na altura pensava que até nem estava nada de especial mas depois vi a forma do cravo e isso significou muito para mim.

    Beijinhos. viva a liberdade. 25 de ABRIL SEMPRE!

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    1. Gostei da resposta que tive ao desafio, já estou a pensar nos próximos! Obrigada novamente pela participação ^^ adorei mesmo a fotografia:D beijinhos

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  4. Acho que para nós o 25 de Abril é apenas uma data histórica nunca vamos saber realmente o que significou porque apenas beneficiamos desse feito e não tivemos que lutar por ele. Durante o meu curso entrevistei uma senhora idosa que disse que na altura muitas pessoas não queriam que a ditadura tivesse acabado. Não por medo, por conformismo, porque era aquilo que conheciam e foi daquela forma que foram educadas e levadas a acreditar naquele regime. Felizmente muito mudou e não temos que mentir por termos educação ou por ter livros em casa com medo de sermos presos. Acho que as pessoas idosas deveriam de falar de como era o antes, talvez a nossa geração desse mais valor ao que se fez para estarmos como estamos hoje.

    Yellow Rain

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    1. Sim, eu dou muito valor às histórias dos tempos dos meus avós e assim sinto-me culturalmente mais rica! Mas não preciso de investigar muito no Passado para reconhecer o bem que nos fez a Revolução do 25 de Abril quando (infelizmente) no Presente ainda existem governos opressores e totalitários dos quais posso obter um modelo base :/

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  5. Adorei o post! Gostei imenso das tuas palavras e das participações. Eu também faço parte da geração que já nasceu sem ter de lutar pelo voto ou pela liberdade de expressão. Sou sem dúvida uma privilegiada. Mas sou uma privilegiada que não quer esquecer esse dia e que toma esse dia como um exemplo a seguir no dia-a-dia. Todos os dias tenho em mente momentos como o 25 de Abril ou até as sufragistas que lutaram e lutaram para que as futuras populações pudessem ter aquilo que eles não tiveram. Isto faz acreditar que unidos somos mais fortes e faz-me acreditar que o que está mal pode sempre ser mudado para melhor. A mudança é sempre possível e nunca podemos ter medo!!

    Blog: http://bolacha-mariaa.blogspot.pt/
    Projeto: http://ajudaoplanetaesalvaomundo.blogspot.pt

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    1. Obrigada, Mariana, disseste tudo. Unidos somos mais fortes e não devemos esquecer quem lutou pela nossa liberdade :) Viva o 25 de Abril!

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